quarta-feira, 23 de julho de 2008

Entrevista - Burro Morto

Burro Morto - Haley, Daniel Ennes, Leonardo Marinho, Natcho Gonsalves, Ruy José


Das bandas que têm aparecido em João Pessoa, e são inúmeras, há uma que sempre me chama atenção. Em todo e qualquer aspecto a banda Burro Morto é uma das únicas que em minha opinião vão conseguir respirar acima do mar de descaso que o cenário underground paraibano se encontra.
No aspecto profissional os caras já mostraram que não estão para molecagem. Desde sua formação, em principio como um coletivo artístico, a banda resolveu que não valia a pena brincar de ser músico, ainda mais na vertente que preferiram navegar, algo entre o groove e o afro, entre o dub e o jazz. Tantas influências e fontes sonoras exigiam sempre muito estudo e sempre que me encontrava com algum deles sempre ficava no mesmo cumprimento: “vamo rala Alberto, vamo ralaaa”.
Tanta ralação resultou em um som bem trabalhado, bem executado e certeiro na idéia, esforço que já está tendo reconhecimento.

A musica Indica foi escolhida para participar da coletânea Amplifica Vol. #1, que foi lançada junto com a sexta edição da revista +SOMA. Puxa vida né?! Bacana pra uma banda com apenas cinco apresentações, mas a qualidade é muita, demais, tanto que na ficou só ai. Além de participarem do lançamento da coletânea que aconteceu na festa de comemoração de um ano da revista, no CB Bar, a banda fechou mais quatro shows em Sampa.

Não pude estar lá com os caras, mas quando voltaram fiquei imaginando como teria sido essa experiência, sair de Jampa Village para Sampa Mega City.
Sentei meia hora com a Burro morto para saber e o resultado ta ai.


Alberto Nanet – Qual foi o impacto que vocês sentiram em São Paulo?

Ruy José – Eu achava que a cidade seria muito rock and roll e de repente a galera não estaria muito a fim de curtir o som da gente. Até o bar que a gente tocou primeiro era muito rock e fiquei meio naquela né? Pow será que vai rolar.

Leonardo Marinho – No primeiro show a casa tava cheia, era uma festa “open bar”, a galera já tava meio alta, a gente tocou em um horário bom, acho que era uma da manhã, então acabou sendo muito bom. Estávamos meio tensos porque já fazia algum tempo que não ensaiávamos, a gente estava concentrado na finalização do nosso disco e eu tive que viajar com outra banda nesse mesmo período. Então acabou que fizemos apenas quatro ensaios, ficamos uns quinze dias sem se ver e nos encontramos novamente no dia do show. A expectativa era grande, mas acabou dando tudo muito certo.

Alberto – Fiquei sabendo que o pessoal da revista curtiu.

Leonardo – Muita gente veio falar com a gente dizendo que gostou e que estava surpreso porque não esperava que vindo da Paraíba o som fosse aquele.

Ruy – Lá realmente há uma grande concentração de cultura, talvez por isso, ainda exista muita gente pensando que fora dali não circula informação. Na verdade a gente sabe que por aqui sempre houve uma galera comprometida com esse lance da criação de novas formas, da experimentação e do não comprometimento com rótulos. Acho que foi isso que eles mais curtiram.

Leonardo – A galera lá sabe que rola alguma coisa em recife sabe, recife é uma referencia, mas saber que aquele som vem da Paraíba foi uma surpresa.

Alberto – Então foi surpresa dos dois lados, tanto de vocês com o lugar como do público com vocês?

Ruy – De certa forma foi sim, até o cara que chamou a gente não sabia se a gente ia se garantir no palco, por exemplo. Porque a gente com essa formação ainda não fez nenhum grande show, então não tinha comentários em torno da gente, tipo ele não tinha nenhuma referência. Então... Foi uma loteria, ele curtiu e resolveu apostar.

Leonardo – Ele viu o myspace e viu uns vídeos no youtube e gostou. O cara até disse que a galera achava que a gente iria de ônibus então eles colocariam a gente pra tocar de todo jeito.

Alberto – E a relação entre o som que vocês fazem e o som que vocês ouviram por lá, tudo casou direitinho ou vocês se sentiram fora do ninho?

Leonardo – Na verdade a gente se sentiu mais dentro do que nunca. Lá tem muita gente produzindo coisas com diversas referencias. Muita gente com a mesma base.

Ruy – Todas as bandas que nós conhecemos, com quem tocamos juntos, eu curti, todas tinham certa afinidade com a gente, algum ponto em comum.

Alberto – E a volta? Como é que é voltar depois de ter acompanhado o ritmo de São Paulo?

Ruy – A maior diferença é essa né?! A velocidade das coisas. Lá meio que todo mundo se preocupa com o que produz. Os bares, por exemplo, já tem o seu próprio equipamento de som, naturalmente, se os caras já sabem que vão fazer show toda semana, varias vezes por semana até, então não vão ficar alugando som todo dia. Sai caro e as vezes você corre o risco do cara não aparecer. Aqui é normal tu chegar pra tocar e não ter técnico de som, não ter nada montado, ou não é? Muitas vezes marcam uma passagem de som três da tarde quando dá umas oito é que tão terminando de montar o palco. Lá, pelo menos nas tocadas que agente fez, se você chegasse meia hora atrasado já te olhavam de cara feia e quase não dava mais pra passar o som. As pessoas tentam se levar a sério mesmo, sabem que é um mercado e tem gente ali tentando sobreviver de alguma forma. A galera ta sempre pensando em fazer a coisa funcionar.

Leonardo – Lá em todo lugar tem diversas idéias nessa área da arte que a galera compra mesmo, que a galera patrocina mesmo. A galera faz coisas viáveis e tem iniciativas privadas que apóiam, lá não é tão absurdo você chegar e pedir patrocínio pra fazer um show. É outro nível de produção e o pessoal tem consciência de há um retorno.

Alberto – E agora que voltou qualé o plano?

Leonardo – Agora é ensaiar mais e produzir pra tentar ficar lá e lô.

Alberto – Vocês acham que se conseguirem se fixar por lá vão conseguir produzir tanto quanto aqui?

Leonardo – Acho que sim, mas teríamos de trabalhar mais. A gente ia ter que se virar mais.

Daniel – Se tivéssemos a mesma estrutura que temos aqui lá em SP, seria possível.
Mas como a realidade é outra, a produção acabaria diminuindo.

Ruy – acho que ainda vai demorar um pouco pra gente decidir ficar mesmo por lá. a correria tem vários pontos negativos. Mas por outro lado até seria bom também, você acaba tendo que acompanhar o ritmo da galera e consequentemente produzindo mais, porque se não nego véi, se quando chegar a hora de mostrar teu trabalho você não estiver em forma, ai tu volta pra casa. É uma questão de seleção natural, né?! Se a concorrência é grande, quem não sustentar a pisada vai ficando pra trás.


A banda Burro Morto está finalizando seu primeiro CD e já tem balas na agulhas para o próximo EP.

sábado, 5 de julho de 2008

A primeira sexta-feira do mês nunca falha.

É o de sempre, sexta-feira pega o carro, pega a gata, nessa época pega um casaco se não quiser pegar uma gripe também. Tudo pronto é só sair pra ver no que dá. Em especial na noite de ontem já sabia o que fazer, mas para não perder a expectativa que costumo sentir, não sabia o que iria dar, sabia que três bandas estariam lançando seus EPs no Galpão 14.

Nublado, Gauche e Sem Horas.

O Largo de São Pedro estava lotado, mas era de carros. Não vi a barraquinha que fica de frente, não tinha ambulante, estranhei bastante. Até aquelas velhas figuras que sempre aparecem e nunca entram pra curtir as bandas e ficam pelas escadarias da igreja, que sempre são tão fiéis em não assistir ninguém, e são muitos, mesmo esses não estavam tantos por lá. Para mim era sinal de que alguma coisa legal estava rolando e eu não sabia, ou pelos menos iria, acendi um cigarro e perguntei pra alguém: “tem algum outro show rolando cara?”. A resposta negativa veio acompanhada dos acordes de Purple Haze vindos de dentro do Galpão. Olha lá que o que tem de legal vai começar.

Paguei o ingresso, paguei a cerveja, e me preparei, quem iria começar era a Nublado.
A banda é animadíssima, mas sem exageros, sem palhaçadas, rock direto e sincero. Com melodias belas, mas sem perder o “punch”, conseguiram fazer um mix entre Toxic de Britney Spears e Lost Art of Keeping a Secret do Queens of the Stone Age, parecer legal. As influencias ficam muito claras em suas musicas, Travis e Foofighters (principalmente por parte do baterista Rayan Lins) foi o que consegui perceber. Das três faixas do EP, Disfarce Insônia e Amanhã, esta ultima era a mais pedida pelo público e os rapazes guardaram-na para o final, junto com uma do Artic Monkeys para fechar a participação deles na noite. Rápido, direto, discreto, e no alvo. Sem maiores firulas nem blá blá blá jogado fora. Uma banda enérgica e direta como o bom rock tem de ser.

A segunda banda da noite é a Gauxe ou “goxe”, palvra francesa que significa esquerdo, mas também pode significar estranho, desajeitado. De fato os rapazes não fazem o estilo “rocker”, carinhas de CDF, óculos na cara, eles fazem um som igualmente goxe, pop folk com letras pisicodélicas. Sobem no palco uma passadinha no som bem breve e já dão início, meio de repente, com a puxada no violão de Bruno Sérgio. No myspace da banda um dos contatos me chamou atenção, Kula Shaker, e pode acreditar tem muito haver. Um som que me lembrou Kleiton e Kledir, só que mais vitamenado, puxado para os Byrds. Fendas para o mar, mar de atlântida, Gigantes astrais no teatro de serafins. E a coisa vai longe. O som para curtir numa boa, na paz, prestando bem atenção nas batias cadenciadas, setentonas, como a última musica do repertório pode traduzir.Um rock adulto, para adultos, para quem abre bem a mente para sacar melodias as mais diversas.

Depois de mais algumas cervejas, bate papos, nem notei que a ultima banda já estava posicionada, fui pego de surpresa por um ataque na guitarra, rockabilly, mas banda eu já conhecia, faz uns dois anos. Eles não eram exatamente esses caras que estavam ali puxando o ultimo gás da platéia para rebolar e pular. O lançamento do EP é uma decorrência de todo o crescimento que a banda tem mostrado, tudo culpa de uma personalidade muito marcante na banda, Carlos Kobal, que atua quase como um maestro enquanto Igor Tadeu, leva o publico. Não é especialmente o tipo de música para qualquer momento, é a banda certa para se fazer uma farra, para agitar o esqueleto, com letras cheias de “tchuaps, tchuap”, “uhuuuuuus”. Para se tomar cervejas e rir enquanto eles comandam o agito. Iê iê iê.

Acabaram-se as bandas, fiquei feliz por saber que a noite de sexta-feira, a primeira sexta-feira do mês, foi tão deliciosamente nova assim. Tenho dois CDs novos no bolso, um cigarro na boca e quando sai do Galpão 14 e olhei para a noite, conhecidencia ou não, essa foi uma noite de céu Nublado, de clima Estranho e Sem Horas para acabar, poi a senhorita Adloff está comigo e eu ainda estou nas espectativa.

Amo sempre a primeira noite de sexta-feira do mês.
Também publicado em: